domingo, 14 de setembro de 2014

Feliz 7 anos

Nesta semana o Projeto “O que deve ser dito” completa 7 anos.
É incrível pensar a quantidade de coisas que mudaram nesse tempo.
Na parte da execução, hoje teria sido mais fácil tanto medir a repercussão quanto fazer a notícia se difundir.
Google analytics, facilidade maior de criação de blogs, sites, e o próprio sistema do Face com seus feeds.
Enquanto proposta, vejo que está cada vez mais difícil nos dias de hoje realmente ser honesto em relacionamentos e buscar se abrir e ser sincero sempre. Se era verdade 7 anos atrás que as pessoas buscam relações cada vez mais superficiais, hoje isso já é uma prática comum.
Lembrar desse projeto sempre é motivo de risada em rodas de amigos, mas ainda sinto todo o peso daquele ato de 4 dias. Por sorte a falsa notícia não causou nenhum dano permanente a amizades nem a pessoas, tendo fortalecido inúmeros laços. Apesar de ter deixado cicatrizes, não ficaram sequelas.
Neste tempo tive perdas para a vida e para a morte, pessoas que saíram da minha vida outras que deixei ir e algumas que desejaria que nunca partissem.
Porém as reflexões daquela semana me fizeram ver todos esses momentos com outros olhos.  Saber que tudo pode acabar em um segundo.
Sempre tentei seguir os princípios que busquei difundir com o Projeto. Construir relações mais verdadeiras, ser aberto para aqueles que realmente são importantes, cultivar amizades. No entanto, por mais que você tente, tanto a vida como a morte estão ai para dizer que seu esforço é válido, porém não lhe traz garantias.  

Desejo a todos relações mais concretas e vidas mais verdadeiras.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Inicio


A morte. Primeira tela.

Este Blog tem como objetivo documenta a segunda parte do projeto “o que deve ser dito”, que consistiu na difusão da falsa noticia da minha morte entre amigos e conhecidos, usando um site de relacionamentos como meio (o Orkut). Querendo levantar com isso, questões sobre a vida e nossas relações com outros seres humanos.
O nome do projeto é pequeno para configurar tantos pontos importantes que ele aborda, ou no mínimo, aponta.
Os textos aqui, não têm objetivo acadêmico, e servem apenas como resposta a todos os que participaram direta ou indiretamente desse projeto.
A próxima etapa é produzir os trabalhos visuais, impregnados de todos os sentimentos, pensamentos e cargas negativas e positivas que todo esse processo trouxe.
Organizei da melhor forma que achei, os tópicos para facilitar a leitura. Através dos marcadores, é possível chegar a resposta que procura, e comentar se tiver alguma duvida, concordar ou descordar.






Marcador de Visitas do blog em que foram publicados os textos. _Zona Mental [http://dhiogo1psicotico.spaces.live.com/]





Minha Produção.

A minha produção artística sempre esteve ligada ao que eu queria dizer. Uma mensagem que eu queria passar, porém essa mensagem não tinha o objetivo de ser totalmente entendida para quem visse um dos meus desenhos.
Atualmente, após pesquisas teóricas em arte e o desenvolvimento e entendimento do meu desenho percebi que além de uma pesquisa plástica formal, busco mostrar coisas que as vezes escapam os olhos e a nossa atenção, sobre nossas vidas e o mundo. Não ser apenas belo ou feio, pois isso sujeita a obra a respostas como: gostei ou não gostei. As respostas que pretendo obter do espectador dos meus desenhos e pinturas são: não concordo com o que ele disse; concordo, ou concordo em partes; isso me fez pensar...; e etc.
Acredito que união das indagações sobre minha produção e meu questionamento sobre a vida e mundo, dão origem a minha arte. As diferentes verdades, diversas possíveis realidades, o sonho, o desejo, a lembrança, a busca, a ausência, aquilo que se esvai, sombras, a sobra, são marcas que constroem a vida.
Surge então o primeiro desafio da minha proposta: como conseguir expressar tantos temas, alguns tão abstratos, e conseguir ser compreendido?
Cheguei a conclusão que seria preciso criar mais que apenas uma ponte com o expectador, deveria usar de diversas linguagens.
A linguagem visual tem um poder, sua presença, cores, conteúdo, matérias, composição tudo isso afeta o nosso corpo de uma maneira involuntária. Uma outra característica da imagem é ser aberta a várias interpretações, e seu caráter simbólico e índicial pode se fazer entendido ou não.
Assim busco na linguagem escrita, o direcionamento, e a exposição de pensamentos, e questionamentos aos quais tais imagens devem corresponder. Pensando em construir dessa forma, uma exposição que desenvolve uma linha de raciocínio. Criando em seu caminho pensamentos, sentimentos, questionamentos. uma interação mais próxima do publico, em que ele se relaciona diretamente com o que eu queria dizer. E não fica na distancia que o cubo branco cria.
Partindo dos meus conceitos de criação, proposição de arte e visão de mundo, desenvolvi uma estratégia de abordagem e difusão dos meus pensamentos, com o objetivo de fazer as pessoas realmente pensarem sobre questões que eu considero importante.

A Idéia

É fácil perceber nos dias de hoje a interação superficial do ser humano com a maioria das coisas a sua volta. E não é difícil se chegar ao motivo dessa postura contemporânea. Diversos acontecimentos do ultimo século foram aos poucos criando pessoas mais e mais individualistas.
O consumo rápido e fácil e a venda de prazer sem culpa são algumas das “doutrinas” que os dominantes capitalistas e neoliberais difundem pela mídia há anos.
Isso e diversos outros fatores ocasionaram, a meu ver, em uma sociedade fria, distante de si mesma, onde as relações são criadas e desfeitas visando o bem pessoal, ou do pequeno grupo ao qual pertence.
Essa postura de unidade no mundo faz as pessoas estarem sempre em “estado de defesa” como em uma guerra, as pessoas se defendem das outras para não entregar nenhum “segredo de estado” ao “inimigo”. Por ser uma postura cultural isso acaba se tornando natural, um código de conduta padrão. Onde as distancias são pequenas e ao mesmo tempo imensas. Felizmente nem todas as pessoas agem assim.

Diante de tais constatações e tantos pontos a serem abordados, tive que reduzir meu ramo de ação e discussão, isso era perigoso por um lado, pois poderia estar deixando de lado boas reflexões, porém era preciso, pois caso fosse muito aberto, tanto eu quanto o publico poderíamos nos perder.
Selecionei então algumas coisas que considerava questões iniciais a se levantar, como: a vida ; o valor das amizades; a perda.

Como estratégia para fazer as pessoas prestarem atenção em suas vidas, nas vidas a sua volta, e dar valor a tudo ou pouco do que elas tem. Evidenciar que todos estamos sujeitos a morte, e que se não agimos com verdade a cada dia, podemos deixar passar momentos que seriam importantes.
A estratégia criada seria então, o desenrolar dos últimos meses de alguém que sabia que iria morrer em breve, e assim ela (a pessoa em questão) decide como seu ultimo esforço em vida deixar algo de si para o mundo. Seu primeiro passo então é dizer tudo aquilo que ele achava importante a seus amigos e familiares, mas que por qualquer motivo pequeno do dia-a-dia ele deixara de dizer, relembrando bons momentos, tocando em feridas que o tempo tenha curado ou deixado cicatrizes, e agradecendo por acontecimentos e atos de seus amigos que contribuíram para ele se tornar o que era atualmente. Dando conselhos, ressaltando o que ele considerava defeitos e virtudes.
Seu segundo passo seria reunir todos que ele conseguira mandar essa carta, dizer que iria morrer.
Perguntando então se alguém quisesse dizer suas ultimas palavras que o fizesse neste momento, pois poderia não haver outro, e assim fazer com que todos nesse dia digam um para o outro nesse encontro o que deveria ser dito.
Em seguida ele prepara sua despedida, com textos que pretendem causar uma reflexão sobre a morte/vida, essa busca contemporânea por relações superficiais, propondo todos a se questionarem sobre por que estamos aqui neste mundo e o que fazemos por aqueles que amamos. Querendo instigar em seus amigos e conhecidos, a vontade de fazer algo no intuito de melhorar a sua e a vida das pessoas a sua volta, de fazer o que ele fez: Dizer o que deve ser dito.

Dizer o que deve ser dito, fazer uma análise de suas relações com os outros, desde quando se conheceram. As coisas que passaram, alguma consideração para o “engrandecimento pessoal”. Expor seus pensamentos abertamente, deixando pudores de lado, e dizendo desde aquele pequeno pensamento que pareça insignificante até o que se mostraram extremamente importante.


Esse era o plano, o enredo que, depois de pronto, deveria ser aplicado à vida real. Posto a prova de todos os imprevistos, entrando em um embate direto com a falta de tempo das pessoas para cultivar suas vidas e amizades, tendo por muitas vezes se dedicar ao máximo em questões de sobrevivência; diversos compromissos; deixando de lado o que a elas era importante.
Para atingir as pessoas e fazê-las saírem de suas fortalezas, precisaria não apenas, passar cartas por debaixo da porta para quem sabe serem vistas, precisava que elas saíssem e vissem o que eu tinha a dizer, primeiramente pela curiosidade fazer com que elas saíssem em buscas de respostas. Tira-las de suas rotinas. Colocá-las diante do imutável. Do fim sem volta.

Haviam vários fatores que me faziam pensar em recuar desse trabalho. Manipulação das pessoas e seus sentimentos, mentiras, e o difícil desafio de trabalhar com um dogma, um tabu, que a situação da morte impõe a todo ser humano, um peso enorme que é cultivado por milênios em varias culturas. Mas o não fazer não mudaria nada na realidade de ninguém, eu não seria uma pessoa melhor nem pior não dando andamento a esse projeto. Continuaria como a maioria das pessoas caminhando de olhos fechados.
E por acreditar em possíveis mudanças e reflexões, atacaria suas fortalezas tentando quebrar barreiras, mas consciente de que poderia haver retaliações, embargos e guerras declaradas.

O meio de desenvolvimento.

É de conhecimento geral a facilidade na comunicação a distancia nos dias de hoje. Tendo um computador com acesso a internet, seja em casa, no trabalho, escola, ou acessado de uma Lan House, existe uma grande facilidade para se comunicar com o mundo, entre outras inúmeras utilidades, manter contato com colegas de profissão, professores, parentes e amigos, de uma forma rápida “barata” e constante. É sem duvida a base da comunicação à longa distancia contemporânea juntamente com o telefone.
Em reflexo ao nosso comportamento diário, as formas de comunicação da internet podem ser ou não superficiais, vai depender de cada um, por outro lado são criadas novas formas de interação cuja base é inteiramente superficial, mas que mesmo assim não limitam o meio, novamente querendo manter suas fortalezas invulneráveis ao “inimigo” e por meio como sites de relacionamentos, blogs e etc, ambientes mais pessoais, elas buscam manter um distanciamento, uma tentativa de preservação de suas intimidades e privacidades. A analise sociológica dessas questões com certeza podem render dezenas de paginas, tenho o objetivo aqui, apenas evidenciá-las como meu ponto de partida.
Na execução do meu projeto, eu usei de dois meios principais para entrar em contato direto com meu publico, o e-mail, por onde mandei cartas sobre o que deveria ser dito a meus amigos, e o Orkut (popular site de relacionamentos), onde eu divulguei a noticia da minha morte, usando também de outra linguagem da internet, apenas como estratégia, no meu blog o meu “ultimo texto em vida” contava as pessoas meus objetivos.
O e-mail é apenas uma atualização Carta tradicional, trazendo consigo todo seu histórico de fonte de noticias, segredos, confidencias entre diversas outras coisas. Mantém intactos conceitos como privacidade e no controle de “informação de guerra”.
O Orkut, popular meio de comunicação, por outro lado, reflete esse desejo de relações superficiais que mantemos hoje em dia, sua estrutura é baseada em números e porcentagens que tentam definir quem você é, agregando status, alimentando seu ego, e te fazendo alguém mais importante, ou não, as pessoas. Esses números e medidas, no entanto são manipuláveis e não refletem um real pensamento, são dados nada concretos e sem fundamentos nem necessidades de serem comprovados. Apenas existem. Como exemplos: a contagem do seu numero de amigos, possível interpretação de dizer que você está ligado a milhares de pessoas, mas quantas são realmente suas amigas? Quantas você realmente conhece, viu, conversou ao menos uma vez sinceramente? A postura das pessoas é “te vi de relance uma vez na minha vida posso te adicionar?” e pronto mais um “amigo” pra te medir como: Confiável de 0 à 100%, Legal de 0 à 100% e Sexy de 0 à 100%. E dizer que é seu fã. E uma pessoa que nunca conversou com você nem te conhece direito te viu uma vez e te adicionou como contato, você aceitou. Coloca-se como seu fã, qual a validade disso? Números.
A postura da maioria das pessoas no orkut, (que sem duvida renderia outras dezenas de paginas de analises sociais), é a de colecionadores. Colecionam avatares (representação da pessoa), e as estocam como prova de que você é uma pessoa especial dentre as outras.
É claro que o meio não é limitado, você pode usar o orkut de uma forma mais pessoa, depende da postura do usuário. Mas ele sem duvida pode te condicionar a um uso mais superficial das relações.
Fora desse mundo “fictício”, imatérico, a realidade é a mesma, as pessoas buscam relações superficiais para suprir seus desejos e objetivos, também as colecionando como números.
Assim usar o meio para evidenciar tal aspecto era uma postura irônica, usaria dessa facilidade de divulgação, e dessa impessoalidade para dizer a todos conhecidos, amigos, e desconhecidos, uma noticia pessoal como à morte de alguém. Para com isso instigar a curiosidade e fazê-las percorrerem uma linha de raciocínio.
Um fato perigoso que não podia deixar de lado, no entanto, que não só, mas principalmente uma noticia na internet não fica parada esperando ser vista. Ela corre pela rede e fora dela por outras redes de relacionamento. O principal ponto fraco dessa estratégia era que os boatos da minha morte poderiam chegar primeiro a muitas pessoas como fato concreto, e por esta não ter um meio de se conectar a internet, ao orkut, ela não iria ler os textos e assim não teria como desenvolver o raciocínio que era a base dessa “performance virtual”. O boato correria, e diante apenas da minha morte, quando eu revelasse que eu de fato não havia morrido seria bem mais difícil o entendimento da minha proposta, como também não faria a pessoa refletir nos questionamentos levantados.

Do conceito a pratica.

Definida então minha estratégia, estipulei um prazo para cumprir suas principais etapas. A primeira parte (cartas e depoimentos aos meus amigos) teve inicio em 28 de abril, e terminaram no dia 10 de setembro. O maior problema era dispor de tempo para escrever tais cartas, e diversos fatores externos acabaram dificultando e atrasando de certa forma essa etapa, por esse motivo não enviei todas as cartas que pretendia.
Esta era a parte digamos fácil, obtive bons resultados, respostas que também diziam o que deveria ser dito. Um outro objetivo dessas cartas era sugerir a minha despedida. Usando de verbos no passado, reavaliado toda trajetória de amizade, agradecendo e me despedindo como em um adeus. Serviriam como indícios que só ganhariam sentido após minha suposta morte.
Depois das cartas enviadas, próximo ao meu aniversário, colocaria em pratica a noticia da minha morte. Para isso queria reunir meus melhores amigos, em um encontro supostamente para comemorar meu aniversario.
Este encontro tinha como objetivo criar uma discussão sobre os temas que eu queria abordar no projeto, vendo as opiniões dos meus amigos, cobrando deles uma atitude mais compromissada e uma busca por mais verdade não só em nossas relações mais também em outras relações pessoais.
Esta era uma parte complicada, já que meus amigos moram todos distantes um do outro, e de mim também. Um encontro onde todos compareçam pede a união de: condições propícias, tempo e grande motivação. Mas minhas expectativas também contavam com a falta de algum deles, como reflexo de diversos empecilhos que a vida nos coloca como: tempo, dinheiro e distancias.
Nesse momento, imprevistos seriam fatores determinantes, e mesmo detalhando a estratégia da melhor maneira possível, estaria sujeito a acasos, mais ainda na terceira parte. A reação das pessoas seria diversa, primeiro ao saber da minha morte, e depois quando constatasse que tinha sido uma farsa.
A terceira parte. A mais delicada. Estaria entrando em território perigoso, o peso que a morte tem para as pessoas, é irracional, estaria mexendo com sentimentos alheios, os fazendo chorar, sofrer, se não por mim, apenas pelo fato da morte. E talvez elas nem percebessem ao certo o que as afetariam mais, se era de fato eu morrer ou simplesmente a morte em si.

O Uso da Morte

Primeiro devo dizer por que era importante a morte nesse projeto. Foram três os motivos inicias para eu tomar essa decisão.
1º As pessoas sabem podem morrer a qualquer momento, porém o nosso cérebro tem defesas quanto a essa certeza, se vivêssemos pensando que cada segundo poderia ser o ultimo certamente enlouqueceríamos. Sendo assim nos acostumamos a pensar que sempre há um depois, sempre vamos ter a chance de fazer o que deixamos passar, mas as vezes esse pensamento é mais prejudicial do que benéfico. Então eu morrendo, perto do meu aniversario, quanto todos dizem as vezes tão vaziamente “Muitos anos de vida”, talvez percebessem que muitas vezes nos podamos, e nos enganamos e que a vida é curta para isso.
Não acho que seja necessário viver cada segundo como se fosse o seu ultimo, mas acho extremamente importante ser sincero consigo mesmo, não se negando aquilo que mais queira fazer, não deixando de dizer o que acha importante. Buscando fazer o máximo para não se arrepender de ter deixado algo passar.
2° A morte chama atenção, causa impacto. Uma noticia como a morte para nós, gera uma quebra no automatismo, quebra a rotina. As questões metafísicas e físicas sobre a morte, principalmente se for a de alguém que você tenha conhecido, tira a banalidade que a vida e a morte ganham na rotina de cada dia. E esse deslocamento e esse choque te fazem ver as coisas de um modo diferente, e essa situação causa uma fragilidade, te desarma em um primeiro momento. E desperta a curiosidade, você quer uma explicação, vai querer saber como, por que, quando.
A curiosidade, chamar atenção para o que eu queria propor, se tornaria mais fácil ganha uma grande expressividade usando dessa estratégia. Colocar a pessoa em uma situação de incertezas e bater de frente com o imutável. O finito.
3° o terceiro motivo é continuação do segundo. Ao saber da minha morte as pessoas iriam querer buscar respostas, e ao lerem meus últimos textos, as questões que eu queria levantar, ganham uma importância que só a morte pode dar. Elas se tornam mais importantes, pois foram as ultimas palavras, os últimos pensamentos...
E esperava com isso, estar presente no pensamento de todos durante os dias da minha morte, vivessem alguns dias com as questões que considerei importante.

A morte. Analise empírica

Uma das primeiras coisas que me disseram quando souberam que na verdade eu estava vivo, foi que eu tinha feito uma brincadeira de muito mau gosto.
Brincadeira, como se eu tivesse me divertindo muito ao enganar todos que eu conheço. É natural. A primeira coisa que você pensa quando alguém te engana é que essa outra pessoa se divertiu a suas custas, você foi subjugado. Seria de fato como perder em um jogo.
Ou talvez por que a pessoa pela qual você estava sentindo a perda, te diz com a voz mais saudável que esta vivo, a raiva deve ser o primeiro estagio de uma escala decrescente.
Mas por que a morte tem tanto peso para agente? É fácil compreender a dor que é perder alguém que fez parte da sua vida, que realmente foi importante para você, porém existem momentos, e pessoas, que choram a morte de desconhecidos.
Não há como negar, a morte geralmente é rodeada pela tristeza. Um ser que tinha um lugar, uma existência, e que no segundo seguinte para de existir, deixa um vazio nos lugares onde antes, como um tijolo em uma parede, exercia sua função. Alguém que talvez, tivesse sonhos, planos, obrigações, que era de suma ou meia importância pra que a vida de outros seguisse bem.
Deveríamos sim ficar tristes, sentir saudade, sentir raiva, chorar, mas não pela morte, e sim e unicamente pelo que perdemos, mas isso deveria passar, mas nos afeta muito de um jeito nada benéfico e de fato não faz diferença a quem se foi. Do que sabemos da morte, fora o que cremos, é que após ela não conhecemos nada.
Temos então uma relação extremamente egoísta com a morte, a tememos de fato, porém a raiz mais forte dessa questão é pura e simplesmente a perda. O medo da perda nos rodeia em diferentes assuntos durante a vida, e ganha força concreta na morte, pois somos impotentes diante dela.
Tememos morrer: perder a vida, aqueles que amamos ou perder a chance de tomar um sorvete, perder o direito de ver o sol, etc. O que tememos realmente na morte é somente a perda, fora o medo do desconhecido. Assim como não queremos que nos tirem tudo que gostamos e amamos, também não queremos ser tirados disso tudo.
Não há nada de errado nesse nosso posicionamento egoísta, a não ser que queiramos ignorá-lo como tal, e ao em vez de aprendermos a controlar esses sentimentos, nos rendemos a eles, e duplicamos o peso que eles já têm.
Às vezes o fato da morte, anula toda uma vida, e entre saudades e angustias, nos focamos no fato de não ter, quando deveríamos apreciar o que tivemos.
Meu objetivo era que a partir da morte as pessoas olharem ao menos um breve momento para a vida com o valor que ela pode ter.

A Execução e sua repercussão.

A minha morte seria o passo mais importante dessa etapa do trabalho.
Estava correndo riscos, e muitas vezes, pensei em voltar atrás, porém sabia que devia terminar o que tinha começado.
Programei a divulgação da minha morte para o domingo, dia dezesseis de setembro, três dias depois do meu aniversário.
Eu tinha que dar credibilidade ao boato, fazer as pessoas acreditarem, por isso o primeiro passo era o scrap em nome da minha irmã, para as pessoas da minha lista, isso era a isca para que eles fossem ao meu perfil que continha a minha proposta do projeto levantando as questões: por que vivemos, para que vivemos? E deixando a proposta de dizer “o que deve ser dito”, fazer o que deve ser dito.
Nesse primeiro texto eu fazia uma critica as relações superficiais, e pedia a todos para buscar relações mais verdadeiras e de maior entrega com seus amigos parentes... Aqueles que você gosta.
Até aqui as pessoas estariam curiosas ainda para saber por que eu morri, e seguia ao texto do projeto um link para o meu blog onde eu dizia ter as respostas para a minha morte.
Esse deslocamento tinha dois objetivos: o primeiro era de saber quantas pessoas tinham lido o projeto a partir do contador de acessos do meu blog.
E o segundo era de dar credibilidade a minha morte. O texto de despedida deveria ser um tanto triste, sentimental, pessoal, dizer o porquê da minha morte e pelo que vivi, para que tivesse mais força o meu projeto e para sensibiliza ainda mais as pessoas como ultimo artifício para fazê-las refletirem sobre o que eu quis passar.
Domingo, é sem duvida o dia em que mais pessoas entram na internet, eu queria que o máximo de pessoas visse em menos tempo possível, e também me dava o álibi para morrer no sábado quando era improvável que eu encontrasse qualquer um dos meus conhecidos.
E então, com três textos, (o scrap, o texto do meu perfil e o de despedida no blog), eu sentenciei minha morte. E metaforicamente, talvez, eu estivesse mesmo, matando confianças, credibilidade, falsas amizades, verdadeiras amizades. Com certeza, eu deixaria uma ferida naqueles que gostassem de mim, ferida metafísica, que após a verdade ser dita e o tempo passasse, ela existiria no fundo da memória das pessoas sem uma forma definida, ela seria para sempre um buraco, uma rachadura nas lembranças dos que sentiram esse meu ato.

Resultados

Já na noite de domingo, recebi ligações de amigos e conhecidos do trabalho. A todos que ligaram para mim eu tentava manter a mentira, saber tão rápido a verdade não ia fazê-los pensar em tudo que propus.
As vozes eram marcadas por espanto e preocupação para aqueles que queriam uma confirmação, acreditavam duvidosos. Para alguns, a morte parece impossível, ou apenas preferem duvidar, pois temem a dor.
Outros, já certos da minha morte, procuravam saber ao certo como foi, e quando seria o enterro, todos com os mesmos sintomas de impotência diante da morte, com as frases clichês, pois não sabemos usar outras, não sabemos o que dizer. Essas vozes eram marcadas por tristeza, em casos, lagrimas... E era infinitamente duro mentir para eles. E toda essa atmosfera, me afetava tanto quanto a eles... Mas ironicamente eles sofriam por não saber a verdade, e eu por sabê-la. Por sorte poucas pessoas ligaram...
No orkut, e no meu blog começavam a chegar mensagens, foram poucas nos três dias em que passei como morto, a maioria, não deixou mensagens, como era de se esperar, mas a contagens de visitantes ao meu blog chegou a 169 durante o projeto, este numero relata apenas o numero de exibição de pagina, e não exatamente a quantidade de pessoas que o visitaram, pois na época meus contatos chegavam a 153, alguns desses nem ficaram sabendo, por outro lado a noticia se espalhou e muitas pessoas que nem estavam na minha lista de contatos diretos, ficaram sabendo e foram ao meu perfil.
Na quarta-feira eu mudei meu perfil, dizendo que eu estava vivo e que tudo tinha sido um projeto, e após isso é que a maioria das mensagens chegou. Comentários indignados de alguns, com raiva e alivio de muitos, e ainda aprovação de outros.
A primeira reação é a duvida, depois a curiosidade, e aqueles que acreditaram carregaram o peso da morte no pensamento por ao menos um dia.
Em seguida ao saber que foi tudo uma farsa, nasce a raiva, natural, porém irracional. (Mas que sentimento é racional?).