Os que sentiram muita raiva.

Alguns passaram rápido do estagio de raiva para o de alivio, outros porém ficaram na raiva, e com ela desmorona a confiança, e todos os bons pensamentos, felizes lembranças e sentimentos de saudade se tornam “vergonhosos“ para esses, e o veneno da mentira em união com a raiva infectam qualquer tipo de dor, tornando o ato algo imperdoável. O que é muito estranho e incoerente, mesmo que compreensível em um primeiro momento, pensando melhor se torna “ridículo”.
Pois como alguém que diz ter se sentido mal, ficado triste por minha morte, ao saber que estou vivo a primeira coisa que ela quer é me matar.
Matar-me não como muitos usaram como piada, os que tiveram raiva e depois relevaram, “você não morreu, mas agora eu vou te matar por ter feito isso!”, como uma brincadeira, uma descontração após um momento de tensão.
Mas aqueles que depois de descobrir que toda dor que sentiram tinha sido “em vão”, como punição a mim, me mataram, como se os únicos que pudessem mentir a minha morte fosse apenas eles (pois no fundo sabem que é mentira). Estamos acostumados e ficamos até felizes mentindo a nós mesmos, mas crucificamos aqueles que mentem.
A minha mentira fere a imaculada memória que minha morte forjada tinha criado, e aquele cara que subia como um anjinho para o céu, agora merecia ser jogado na lama. A incoerência é ainda maior, a aqueles que pensaram “não tivemos tempo de fazer, de dizer, de pensar juntas coisas e agora não vai ser mais possível” e quando eu digo com a minha mentira “estou vivo, é tudo possível de ser feito e dito” a pessoa prefere me excluir da sua vida por escolha própria, querendo dominar a morte, tentando evitar que “eu saia vitorioso” depois de tê-la feito sofrer, como se fosse possível, me afastando e dizendo que morri, afastar qualquer dor futura, como se ninguém mais fosse morrer de verdade.
Eu sabia que esses pensamentos poderiam acontecer, sabia que era um terreno perigoso, sabia que poucos iam conseguir vencer o calor do momento e reparar no que estava acontecendo, no que juntos eu e todos que leram, conseguimos criar. Revelamos nesses acontecimentos um pedaço da alma humana e seus mais íntimos medos e mecanismos que controlam nossas vidas. Não digo que isso tenha acontecido a todos, mas que a partir da experiência de alguns podemos fazer uma análise para todos.
O que eu queria com tudo isso era que as pessoas percebessem esse mecanismo:

A morte levou com ela o futuro, a presença, deixou apenas lembranças, boas e más. E dessa falta de futuro surgem inúmeras coisas a dizer, coisas que queríamos fazer com a outra pessoa, outras que queríamos vê-las realizando, quando não era mais possível dizer ou fazer nada!
Não devemos agir assim, devemos tentar perceber todos esses pensamentos agora, fazer aqueles que são possíveis acontecerem.
Sei que o ato em si pode não parecer tão nobre, e de certo não é, mas queria que as pessoas percebessem esse processo e a reproduzissem a todos que elas amam, ao saber que de fato eu estava vivo, todas as possibilidades se tornam possíveis novamente, e há verdades que só nos são reveladas quando não podemos reverter mentiras, e há pensamentos que só chegam a nossa mente quando acreditamos que é tarde de mais.
De fato a raiva era esperada, mas ela não é benéfica ao ser humano, e se todos nós pudéssemos controlá-la, poderíamos perceber o que ela nos faz perder. Eu arrisquei alto, de fato esperava que todos os bons momentos, e coisas boas que transmiti aos que me conheceram vencessem a recente dor que tinha causado, mesmo ela sendo grande. E de fato, na maioria dos casos, se não todos após um tempo, perceberam isso.

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